Contos
A 150 km do Inferno
publicado em 10/03/2010
73 visitas

malgaxe
Pato Branco (PR)
Membro desde 03/2010
Membro desde 03/2010
A noite estrelada presenciou o lento caminhar de Pietro pelo meio do antigo parque de diversões, até parar sob uma árvore, sentar e olhar as estrelas. Há muitos anos não o parque não funcionava mais. Desde que a tragédia da montanha-russa levou 13 vidas, estraçalhadas por entre as ferragens a 150 quilômetros por hora.
Pietro Romanev era um dos responsáveis pelo funcionamento e manutenção do parque, mas o único ainda vivo e que, vez ou outra, vinha olhar a sucata do seu antigo trabalho. À direita de onde estava, uma roda gigante; ao fundo, dois carrosséis, mais alguns brinquedos; e à sua esquerda, a montanha-russa.
Ao todo, 25 cadeados e fortes correntes condenavam o velho brinquedo a nunca mais funcionar, mesmo porque, deteriorado pela oxidação, nada mais poderia ser feito para recuperá-lo. Ficara parado até a justiça resolver seu destino, mas acharam por bem desativar o parque todo.
Apesar de ter sido absolvido no julgamento, Pietro carregava também a culpa pelo desastre. O que ele não sabia era que os outros donos e funcionários do parque, condenados ou não, depois de 15 anos pestavam todos mortos. E morreram em condições misteriosas.
Eram 2h da madrugada. Apesar de envolto em pensamentos, Pietro pode divisar nas proximidades do alambrado que cerca o antigo parque um vulto. Apurou a audição e ouviu uma tosse. E, na penumbra, viu o vulto contornar um dos carrosséis e ir na direção da montanha-russa.
Um arrepio percorreu sua espinha. Acendeu um cigarro, olhou fixamente a base da montanha-russa e dirigiu-se para lá. Quando deu três passos, um barulho infernal de corrente veio do alto. Depois, o silêncio... Ao chegar ao brinquedo, acendeu o isqueiro pra olhar a plataforma onde as pessoas paravam para embarcar.
Como um filme, o dia fatídico retornou em sua memória de maneira clara... Os pedaços humanos foram sendo reunidos pelos bombeiros e amontoados naquela pequena plataforma, um local coberto e de fácil acesso à saída do parque.
A jovenzinha que morreu com os alvos olhos azuis esbugalhados e o crânio esfacelado...
O senhor que tinha um grande corte de cima abaixo do corpo, e que instintivamente, antes de morrer, pegou a boneca de sua neta e acomodou no que sobrou do braço...
A velocidade da montanha-russa, acima do normal, promoveu uma carnificina de revirar o estômago de qualquer um. O sangue, naquela tarde, jorrara abundantemente, para o horror de todos. Ao lado da plataforma, as longas cadeiras para o transporte, que Pietro iluminou, e mais abaixo, no chão, pingos de sangue.
Por ser uma área coberta, o sangue conservara-se durante anos - inicialmente, a pedido da justiça; depois, porque não havia mais ninguém para a manutenção.
Um leve som chamou sua atenção, como que o deslocar de uma locomotiva. Ao dar um passo à frente, tropeçou e caiu sobre as cadeiras. Sentiu uma dor forte nas costas e se arrumou na cadeira para esperar passar a dor...
Novamente ouviu o som e, ao tentar mexer-se, não conseguiu. Desesperou-se... As cadeiras da montanha-russa começaram a movimentar-se para a frente. O barulho de ferro retorcido era infernal. Caíam sobre seu colo pedaços de corrente, enquanto a velocidade aumentava lentamente... Gritos de horror encheram a noite vazia... 10... 20... 30... 50... 100... 150 quilômetros por hora. Pietro rezava em voz alta, enquanto a cidade, ao longe, passava como um facho de luz apenas...
Quando a montanha-russa se estabilizou em 150 quilômetros por hora, ouviu longas gargalhadas. E como afiadas lâminas, os velhos ferros enferrujados retalharam o seu corpo, reduzindo tudo a pequenos fragmentos de carne...
Pela manhã, aquele terreno baldio, longe da cidade, guardava apenas os velhos pingos de sangue na plataforma coberta, lavados pela chuva da madrugada. Pedaços de vestes de alguém que por ali passou algum dia e aguardou sua hora de pagar uma dívida...
Pietro Romanev era um dos responsáveis pelo funcionamento e manutenção do parque, mas o único ainda vivo e que, vez ou outra, vinha olhar a sucata do seu antigo trabalho. À direita de onde estava, uma roda gigante; ao fundo, dois carrosséis, mais alguns brinquedos; e à sua esquerda, a montanha-russa.
Ao todo, 25 cadeados e fortes correntes condenavam o velho brinquedo a nunca mais funcionar, mesmo porque, deteriorado pela oxidação, nada mais poderia ser feito para recuperá-lo. Ficara parado até a justiça resolver seu destino, mas acharam por bem desativar o parque todo.
Apesar de ter sido absolvido no julgamento, Pietro carregava também a culpa pelo desastre. O que ele não sabia era que os outros donos e funcionários do parque, condenados ou não, depois de 15 anos pestavam todos mortos. E morreram em condições misteriosas.
Eram 2h da madrugada. Apesar de envolto em pensamentos, Pietro pode divisar nas proximidades do alambrado que cerca o antigo parque um vulto. Apurou a audição e ouviu uma tosse. E, na penumbra, viu o vulto contornar um dos carrosséis e ir na direção da montanha-russa.
Um arrepio percorreu sua espinha. Acendeu um cigarro, olhou fixamente a base da montanha-russa e dirigiu-se para lá. Quando deu três passos, um barulho infernal de corrente veio do alto. Depois, o silêncio... Ao chegar ao brinquedo, acendeu o isqueiro pra olhar a plataforma onde as pessoas paravam para embarcar.
Como um filme, o dia fatídico retornou em sua memória de maneira clara... Os pedaços humanos foram sendo reunidos pelos bombeiros e amontoados naquela pequena plataforma, um local coberto e de fácil acesso à saída do parque.
A jovenzinha que morreu com os alvos olhos azuis esbugalhados e o crânio esfacelado...
O senhor que tinha um grande corte de cima abaixo do corpo, e que instintivamente, antes de morrer, pegou a boneca de sua neta e acomodou no que sobrou do braço...
A velocidade da montanha-russa, acima do normal, promoveu uma carnificina de revirar o estômago de qualquer um. O sangue, naquela tarde, jorrara abundantemente, para o horror de todos. Ao lado da plataforma, as longas cadeiras para o transporte, que Pietro iluminou, e mais abaixo, no chão, pingos de sangue.
Por ser uma área coberta, o sangue conservara-se durante anos - inicialmente, a pedido da justiça; depois, porque não havia mais ninguém para a manutenção.
Um leve som chamou sua atenção, como que o deslocar de uma locomotiva. Ao dar um passo à frente, tropeçou e caiu sobre as cadeiras. Sentiu uma dor forte nas costas e se arrumou na cadeira para esperar passar a dor...
Novamente ouviu o som e, ao tentar mexer-se, não conseguiu. Desesperou-se... As cadeiras da montanha-russa começaram a movimentar-se para a frente. O barulho de ferro retorcido era infernal. Caíam sobre seu colo pedaços de corrente, enquanto a velocidade aumentava lentamente... Gritos de horror encheram a noite vazia... 10... 20... 30... 50... 100... 150 quilômetros por hora. Pietro rezava em voz alta, enquanto a cidade, ao longe, passava como um facho de luz apenas...
Quando a montanha-russa se estabilizou em 150 quilômetros por hora, ouviu longas gargalhadas. E como afiadas lâminas, os velhos ferros enferrujados retalharam o seu corpo, reduzindo tudo a pequenos fragmentos de carne...
Pela manhã, aquele terreno baldio, longe da cidade, guardava apenas os velhos pingos de sangue na plataforma coberta, lavados pela chuva da madrugada. Pedaços de vestes de alguém que por ali passou algum dia e aguardou sua hora de pagar uma dívida...
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