Contos
Os Corruptos
publicado em 01/02/2010
97 visitas

RuboMedina
Belo Horizonte (MG)
Membro desde 02/2009
Membro desde 02/2009
Meus personagens são pessoas comuns. Você pode encontrá-los.
(ACONTECEU NUM LUXUOSÍSSIMO RESTAURANTE DO LAGO SUL, EM BRASÍLIA)
- Quero um filé de peixe ao molho de tamarindo e vagem cozida na água e sal, bem verdinha. Sal puro mesmo! E azeite de oliva. Puríssimo!
- Algo mais, senhor?
- Morei nos Estados Unidos!
- E... ?
- Lá eu era Busboy...
- Quê isso?
- Um tipo de serviço que a gente faz em restaurantes, recolher das mesas utensílios usados pelos clientes...
- Ah! Sou louco pra ir pra lá. Faturar uma grana. Vim do Maranhão há pouco tempo. Aqui a gente rala muito e ganha uma merreca. Nem dá pra sobreviver. Algo mais, senhor?
- Só um lembrete: se por acaso o peixe tiver espinho, um espinhozinho sequer, processo o restaurante!
A ameaça soou bem séria. Logo após, o cliente voltou a comentar:
- Nos Estados Unidos não se encontra espinho em peixe. Nem pra remédio! Aqui é essa z... ! Mais espinho que peixe!
- Certo! Vou dizer ao chef.
O garçom saiu apressado. Outro cliente, sentado à direita do exigente, se dirigiu a ele, puxando conversa. Esse era um homem grisalho na casa dos 50, muito bem vestido e perfumado, que exibia, na mão peluda, um anel de formatura.
As mesas eram próximas, mas os dois trocaram apenas poucas palavras. Vinte minutos depois o garçom voltou com o pedido. O cliente que disse ter morado nos Estados Unidos pediu licença e começou a comer. Quando terminou a refeição, o homem grisalho quis saber:
- Satisfeito?
- Sim!
- Disse que morou nos Estados Unidos. Também morei. Fiz pós em Harward. Realmente, o que disse a respeito do peixe é verdade. Lá a coisa é séria...
Falou sem encarar o exigente cliente, remexendo no prato onde havia uns restinhos de comida.
- Não encontrou espinhos?
- Graças a Deus não!
O grisalho brincou com o garfo, ao mesmo tempo em que enfiava a mão direita no bolso do paletó, de onde puxou uma carteira. Abriu-a e tirou uma identificação de advogado, que deixou discretamente visível sobre a mesa.
- Também comi peixe, mas não dei tanta sorte. Veja!
E mostrou os espinhos.
- Não mesmo...
- O senhor ameaçou processar o restaurante acaso encontrasse espinhos. Podemos abrir o processo - disse, remexendo ostensivamente alguns espinhos no prato com o garfo e com a outra mão, alisando a carteira de advogado.
- Como?
- Deixa eu lhe dizer!
Logo após, houve uma troca de olhares mais intensa entre os dois, uma aquiescência, e começaram a conversar novamente. O garçom voltou. O exigente freguês mudou de postura.
- Eu disse que processava o restaurante se encontrasse espinho. E isso aqui, o que é? Me diga!
O garçom ficou embaraçado, sem argumentos. Gaguejava, tentando encontrar as desculpas necessárias. O grisalho se intrometeu, enfiando a mão no bolso do paletó e tirando a carteirinha de advogado que havia guardado.
- O cliente tem razão! Poderia ter se engasgado. Estou aqui como advogado para defender os seus direitos... Gostaria, senhor?
O garçom arregalou os olhos. Achou a situação meio estranha, mas imediatamente mudou de atitude.
- Querem saber de uma coisa? Tô por aqui com esse restaurante. Pedi pra me mandarem embora e eles não estão nem aí. Nós três podemos ferrar o dono!
Os dois clientes, embora surpresos, responderam quase em uníssono.
- De acordo!
Para ganhar tempo e traçar a estratégia do golpe, o advogado pediu outro filé de peixe, um suflê de damasco e uma taça de vinho, completando:
- Então estamos combinados. Vamos arrastar uma grana aqui. Traga o meu pedido, dê um tempinho, depois chame o Gerente. Vamos ameaçar um escândalo pra ver no que dá!
O garçom saiu quase correndo. Não demorou muito e voltou com o pedido. Quando viu que o advogado estava terminando o suflê antes mesmo de comer o filé, voltou à sua mesa. Conversaram. Depois foi até o scotch bar e chamou o gerente. O cerco estava se formando.
O gerente, um rapaz jovem, alto e louro, trajando um caríssimo terno azul-marinho, veio até a mesa do exigente freguês. O garçom se antecipou:
- Este senhor quase se engasgou. Encontrou espinhos no peixe. Ele já morou nos Estados Unidos e lá, espinhos dão processo. O sr. sabia disso?
O gerente arregalou os olhos verdes, que de um segundo para o outro se tornaram cinza. O exigente freguês confirmou, mostrando uns três espinhos colocados cuidadosamente num canto do prato, enquanto o grisalho, fingindo-se alheio à conversa, cortou uma fatia do segundo filé que antes nem havia tocado e levou à boca.
Como eles estavam sentados num canto do restaurante, ninguém percebeu o que se passava. O gerente, confuso, pediu licença e foi saindo, quando algo fez com que parasse. De olhos arregalados, avançou apressadamente para a mesa do grisalho e gritou:
- Gente, esse homem está se engasgando com espinhos... Será que tem algum médico aqui? Rápido... celular... alguém chame uma ambulância...
Tudo aconteceu em questão de segundos. O advogado se debatia. Baba escorrendo pela boca. Como era muito branco, seu rosto já estava adquirindo a coloração de pimenta. Não conseguia falar. Apenas gemia e gesticulava, quase sem ar. Um outro cliente correu ao seu socorro. Forçou o queixo dele pra baixo e abriu a sua boca violentamente. Enfiou um dedo até a sua garganta e puxou com determinação. Sangue escorria na gola da camisa azul do homem, que nessa altura já estava sem o paletó). O cliente arrancou de sua garganta um espinho do tamanho da cabeça de um dedo:
- Pronto! Dessa o senhor não morre!
Ele suava. Não conseguia dizer nada. Apenas enxugava o sangue que não parava de escorrer. Ouviu-se na noite o barulho de uma ambulância parando no imenso estacionamento do restaurante. Enfermeiros e paramédicos correndo.... uma maca... vidro de soro... Uma agitação. E o vermelho da sirena formando imagens desastrosas nos espelhos do interior do estabelecimento. O exigente freguês aproveitou o tumulto e saiu de fininho.
O garçom, aquele que queria fazer parte do complô... cadê ele?
- Garçom!!!
- Chamando.... Alguém gostaria de fazer um pedido?
- Quero um filé de peixe ao molho de tamarindo e vagem cozida na água e sal, bem verdinha. Sal puro mesmo! E azeite de oliva. Puríssimo!
- Algo mais, senhor?
- Morei nos Estados Unidos!
- E... ?
- Lá eu era Busboy...
- Quê isso?
- Um tipo de serviço que a gente faz em restaurantes, recolher das mesas utensílios usados pelos clientes...
- Ah! Sou louco pra ir pra lá. Faturar uma grana. Vim do Maranhão há pouco tempo. Aqui a gente rala muito e ganha uma merreca. Nem dá pra sobreviver. Algo mais, senhor?
- Só um lembrete: se por acaso o peixe tiver espinho, um espinhozinho sequer, processo o restaurante!
A ameaça soou bem séria. Logo após, o cliente voltou a comentar:
- Nos Estados Unidos não se encontra espinho em peixe. Nem pra remédio! Aqui é essa z... ! Mais espinho que peixe!
- Certo! Vou dizer ao chef.
O garçom saiu apressado. Outro cliente, sentado à direita do exigente, se dirigiu a ele, puxando conversa. Esse era um homem grisalho na casa dos 50, muito bem vestido e perfumado, que exibia, na mão peluda, um anel de formatura.
As mesas eram próximas, mas os dois trocaram apenas poucas palavras. Vinte minutos depois o garçom voltou com o pedido. O cliente que disse ter morado nos Estados Unidos pediu licença e começou a comer. Quando terminou a refeição, o homem grisalho quis saber:
- Satisfeito?
- Sim!
- Disse que morou nos Estados Unidos. Também morei. Fiz pós em Harward. Realmente, o que disse a respeito do peixe é verdade. Lá a coisa é séria...
Falou sem encarar o exigente cliente, remexendo no prato onde havia uns restinhos de comida.
- Não encontrou espinhos?
- Graças a Deus não!
O grisalho brincou com o garfo, ao mesmo tempo em que enfiava a mão direita no bolso do paletó, de onde puxou uma carteira. Abriu-a e tirou uma identificação de advogado, que deixou discretamente visível sobre a mesa.
- Também comi peixe, mas não dei tanta sorte. Veja!
E mostrou os espinhos.
- Não mesmo...
- O senhor ameaçou processar o restaurante acaso encontrasse espinhos. Podemos abrir o processo - disse, remexendo ostensivamente alguns espinhos no prato com o garfo e com a outra mão, alisando a carteira de advogado.
- Como?
- Deixa eu lhe dizer!
Logo após, houve uma troca de olhares mais intensa entre os dois, uma aquiescência, e começaram a conversar novamente. O garçom voltou. O exigente freguês mudou de postura.
- Eu disse que processava o restaurante se encontrasse espinho. E isso aqui, o que é? Me diga!
O garçom ficou embaraçado, sem argumentos. Gaguejava, tentando encontrar as desculpas necessárias. O grisalho se intrometeu, enfiando a mão no bolso do paletó e tirando a carteirinha de advogado que havia guardado.
- O cliente tem razão! Poderia ter se engasgado. Estou aqui como advogado para defender os seus direitos... Gostaria, senhor?
O garçom arregalou os olhos. Achou a situação meio estranha, mas imediatamente mudou de atitude.
- Querem saber de uma coisa? Tô por aqui com esse restaurante. Pedi pra me mandarem embora e eles não estão nem aí. Nós três podemos ferrar o dono!
Os dois clientes, embora surpresos, responderam quase em uníssono.
- De acordo!
Para ganhar tempo e traçar a estratégia do golpe, o advogado pediu outro filé de peixe, um suflê de damasco e uma taça de vinho, completando:
- Então estamos combinados. Vamos arrastar uma grana aqui. Traga o meu pedido, dê um tempinho, depois chame o Gerente. Vamos ameaçar um escândalo pra ver no que dá!
O garçom saiu quase correndo. Não demorou muito e voltou com o pedido. Quando viu que o advogado estava terminando o suflê antes mesmo de comer o filé, voltou à sua mesa. Conversaram. Depois foi até o scotch bar e chamou o gerente. O cerco estava se formando.
O gerente, um rapaz jovem, alto e louro, trajando um caríssimo terno azul-marinho, veio até a mesa do exigente freguês. O garçom se antecipou:
- Este senhor quase se engasgou. Encontrou espinhos no peixe. Ele já morou nos Estados Unidos e lá, espinhos dão processo. O sr. sabia disso?
O gerente arregalou os olhos verdes, que de um segundo para o outro se tornaram cinza. O exigente freguês confirmou, mostrando uns três espinhos colocados cuidadosamente num canto do prato, enquanto o grisalho, fingindo-se alheio à conversa, cortou uma fatia do segundo filé que antes nem havia tocado e levou à boca.
Como eles estavam sentados num canto do restaurante, ninguém percebeu o que se passava. O gerente, confuso, pediu licença e foi saindo, quando algo fez com que parasse. De olhos arregalados, avançou apressadamente para a mesa do grisalho e gritou:
- Gente, esse homem está se engasgando com espinhos... Será que tem algum médico aqui? Rápido... celular... alguém chame uma ambulância...
Tudo aconteceu em questão de segundos. O advogado se debatia. Baba escorrendo pela boca. Como era muito branco, seu rosto já estava adquirindo a coloração de pimenta. Não conseguia falar. Apenas gemia e gesticulava, quase sem ar. Um outro cliente correu ao seu socorro. Forçou o queixo dele pra baixo e abriu a sua boca violentamente. Enfiou um dedo até a sua garganta e puxou com determinação. Sangue escorria na gola da camisa azul do homem, que nessa altura já estava sem o paletó). O cliente arrancou de sua garganta um espinho do tamanho da cabeça de um dedo:
- Pronto! Dessa o senhor não morre!
Ele suava. Não conseguia dizer nada. Apenas enxugava o sangue que não parava de escorrer. Ouviu-se na noite o barulho de uma ambulância parando no imenso estacionamento do restaurante. Enfermeiros e paramédicos correndo.... uma maca... vidro de soro... Uma agitação. E o vermelho da sirena formando imagens desastrosas nos espelhos do interior do estabelecimento. O exigente freguês aproveitou o tumulto e saiu de fininho.
O garçom, aquele que queria fazer parte do complô... cadê ele?
- Garçom!!!
- Chamando.... Alguém gostaria de fazer um pedido?
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COMENTÁRIOS
09/02/2010 - Angel - Natal
Oi, meu lindoooooooo, que feliz estou! Obrigada por me seguir no blog! Desejo que você viaje em cada poema, poesia, haicai! Desejo só sucesso para você! OBG! Bjusssss
09/02/2010 - Angel - Natal
Meu lindo e genial nos Contos aqui do Talentos... O portal de meu blog é este aí em baixo, desejo mesmo um seguidor ilustre como você! Me dê essa honra! Muitos beijosss...
http://www.cleciaflordecacto.blogspot.com/
http://www.cleciaflordecacto.blogspot.com/
09/02/2010 - Roseli - São Paulo
Olá. Seu conto é maravilhoso, envolvente e retrata bem o nosso momento politico atual. Adorei.
03/02/2010 - RuboMedina - Belo Horizonte
Angel, minha querida. Tem toda permissão. Me envie o end. do blog, pra eu ter o prazer de conhecer mais esse tr abalho seu. Pode enviar pra meu e-mail ou deixe recadinho aqui.
Beijos e obrigado pelo prestígio. Sabia que fiquei muito honrado?
Beijos e obrigado pelo prestígio. Sabia que fiquei muito honrado?
02/02/2010 - Angel - Natal
Meu amigo, gostaria de pedir a sua permissão para colocar este conto no meu blog. Gostei bastante, seria possível? Mande uma resposta nos meus escritos, ok?Beijos e obrigada! Ah! Farei um pequeno comentário sobre seu talento de escrever contos, é claro!
02/02/2010 - Angel - Natal
Amigo! Que bom que está aqui de novo; e eu lendo mais um de seus escritos! Pois é, um "corrupto" não mede as consequências estúpidas de seus atos! E vivemos num "restaurante" paralelo como "este", assim! Que pena! Uma vergonha! Beijos e sucesso! Saudades, viu??
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